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domingo, 14 de março de 2010
Sal
Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra;
Santo António foi sal da terra e foi sal do mar.
P.e António Vieira,
Sermão de St.º António aos Peixes
Ainda a aurora vem para lá da loura planície, e já Francisca avança pelas dunas, aqui chamadas "medos", com passo certo e seguro. Deixou à filha mais velha todas as recomendações para cuidar dos irmãos e para a preparação dos almoços, que os mais novos ajudarão a levar ao pai, que anda na construção da "estrada nova", e a ela própria, Francisca, que por ora ainda vai a caminho da praia do Sissal, onde passará o dia a recolher os limos que a maré deixar.
A terra que a recebeu cedo foi pelas suas mãos trabalhada com o saber ancestral que lhe corre nas veias há gerações e gerações. Essas mãos de mãe, que pare e cuida, sempre da terra conseguiram a vida, tanto no pão como nas flores, que sempre amou.
Agora, é do mar que vão retirar o sustento que o sargaço está a dar, desde que chegaram aquelas camionetas que vêm pagar tostões por arrobas mal pesadas de limos castanhos, secos ao sol, estendidos nas areias dos medos.
Com o sal que vem do mar se salgará a terra.
* Esta é uma humilde tentativa de resposta a um triplo desafio que a Guida Palhota ali atrás deixou.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
O jardim marinho
Era uma vez um menino que nasceu cego para as coisas da terra. Só via o mar e o que nele havia. Sabia caminhos nas águas, carreirinhos. Dava nome às ondas, de uma em uma. Dizia: a luz nasce do mar e não dos astros. A claridade lhe chegava do azul, ainda molhada e, depois, flutuarejava nos céus.
Andar em terra enjoava-lhe. Tinha temor de pisar em solo firme, de cair no duro chão. Até o verde terrestre lhe incomodava. O menino não sabia tocar as folhagens, ásperas e secas. Plantas, para ele, eram as algas escorregadias e ondulantes.
Andar em terra enjoava-lhe. Tinha temor de pisar em solo firme, de cair no duro chão. Até o verde terrestre lhe incomodava. O menino não sabia tocar as folhagens, ásperas e secas. Plantas, para ele, eram as algas escorregadias e ondulantes.
– Quero a minha escola no mar, pai. Em terra não posso.
O pai respondia:
– Há-de ser, filho.
A mãe chorava. Como podia ela ter gerado aquele menino, mais a jeito de ser peixe? E a criança, apalpando o escuro, tocava as lágrimas da mãe e acreditava que ela sorria. No seu entender, água seria sempre sinal de felicidade.
– A mãe contenta-se. São meus dedos que dizem.
A pobre mulher não respondia. Aquele era seu único filho. Para o sustentar ela tivera que trabalhar na cidade. O dinheiro que o marido retirava das pescarias já não chegava. Nem tão pouco. Os três já eram tantos, mais bocas que braços. Quando ela saía para o trabalho, pelas traseiras da casa, o menino se derramava em total despedida. Como se fosse infinita a estrada.
O pai parecia nem dar conta da estranheza de seu filho. Aceitava. Mesmo decidira puxar a cabana mais para junto da rebentação. Prendas que o miúdo lhe trazia: conchas, búzios, brilhos da maresia.
– Será que passa?
Dúvida e angústia da mãe olhando o filho no meio das águas, nadando com despacho de golfinho. Ela sacudia a cabeça, negando-se: em terra o menino não tinha a competência de nem um passo, sequer um. Fora de água, sua visão se apagava. O pai, muitas das vezes, adentrava-se por terra, desafiando o miúdo para vir junto. Mas o filho chorava do escuro onde o mergulhavam.
Com o tempo e como a doença piorasse, a mãe passou a dedicar ódio ao mar. O incansável ruído das ondas já lhe inundava o sono. Ela deixou de dormir, ocupada em sofrer.
– Marido, vamos sair daqui. Vamos no interior.
– E nosso filho?
– Ele se habitua, você vai ver.
Concluía o homem que era impossível, o menino não resistiria. E assim demorou-se o tempo. O menino deu-se de bem crescer, encharcado de azul e sal. Agora, já não era mais criança. Ao fazer do corpo se ajuntava a vontade de ainda mais ser das águas. Um dia, ele:
– Devo ir. Eu pertenço lá.
E apontou o oceano. A mãe escondeu dentro um quase alívio. Mas era uma consolação triste, como se fosse o descanso de um parto falecido. Ela já não o ouvia, ele falava qualquer coisa de ser jardineiro, plantar nas ondas.
– Não chora, mãe. Eu hei-de passar a visitar.
O pai suspirou um longo silêncio.
– Não, filho. Já não vais-nos ver mais. Vou levar tua mãe para longe, ela não pode continuar-se vizinha da água.
Ele dobrou a despedida, perdendo-se no azul inatingível. Os dois velhos ficaram a ver a sua extinção. Quando o Sol ajoelhou a beijar o horizonte, ela pediu ao marido:
– Não vamos partir esta noite. Só amanhã.
O pescador, de silêncio, consentiu. Mas, naquela noite, eles não buscaram o aconchego da cabana. Ficaram, sob os ramos da Lua, olhando o escuro abismo por onde o filho desaparecera, ouvindo os seus passos afogando-se na distância.
...................................................................Mia Couto, Cronicando
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
domingo, 13 de setembro de 2009
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
domingo, 16 de agosto de 2009
Intervalo
A meio das férias, partilho convosco um minuto dos que passei nos últimos dias nos sítios que gosto de também partilhar com os amigos.
Peço desculpa pela má qualidade do filme, mas nem a câmara nem o operador valem grande coisa.
Boas férias!
sábado, 20 de junho de 2009
A pedido...
Margarida, aqui tens o amigo urso, interrompendo o longo silêncio, numa toada à Abrunhosa!
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Noroeste (IV)... beyond and back again
Como a malta (alguma) parece ter gostado dos Luar na Lubre, aqui apresento a primeira faixa do álbum Voyager (1996), de Mike Oldfield, que rearranjou o tema "O Son do Ar", original dos LnL, do seu primeiro álbum (1988) com título homónimo, tema esse que pode ser ouvido aqui mesmo ao lado no «Audiendo».
quarta-feira, 13 de maio de 2009
quinta-feira, 30 de abril de 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
domingo, 5 de abril de 2009
A minha praia
A minha praia, ontem à tarde, falava assim... e, no meio da nossa conversa, pediu-me para falar também convosco!
quinta-feira, 5 de março de 2009
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Stella Maris
Depois de mais uma volta na cama, lentamente abriu os olhos e demoradamente o procurou na outra metade do leito. Nem sinal da sua presença. Em sobressalto, sentou-se de olhos fixos no breu do quarto, ouvindo o rumor, ritmado e progressivo, das ondas quebrando nas falésias vizinhas, num crescendo infinito, como se o mar quisesse, em fúria, definitivamente iniciar a sua invasão da terra por aquela enseada. Enterrou a cabeça nas mãos e um choro, que começou quase mudo, em breve se tornou pranto, como se as suas lágrimas quisessem inundar-lhe a casa, em conluio com o mar.
Ele partira há já muitos dias, mar adentro, manobrando sozinho na popa do seu pequeno barco e nunca mais voltara nem dele soubera qualquer nova. Teria o mar decidido vingar-se da sua ousadia? E agora o mar revolto tentava entrar-lhe pela casa. Porquê? Só porque ele, um dia, lha tinha roubado e a tinha trazido para viver consigo? Não pode um homem amar uma Estrela do Mar?
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
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