sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Desassossego



V

(Notícia da morte de Fernando Pessoa. Tantas
vezes ouvi música perto dele no «promenoir»
do Politeama)

Ah! se acontecesse enfim qualquer coisa!

Se de repente saísse da terra um braço
e atirasse uma rosa
para o espaço.

Mas não.

Lá está o sol do costume

com a exactidão
de uma bola de lume
desenhada a compasso...

... sol que à noite continua
a andar em redor
nas entranhas da lua
– que é sol com bolor...

E desde que nasci,
haja paz ou guerra,
nunca vi outra coisa.

Ah! como queres que acredite em ti
– braço que hás-de romper a terra
e atirar uma rosa?

José Gomes Ferreira,
A Morte de D. Quixote
(1935-1936)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Trovante - Xácara das Bruxas Dançando

ESCONJURO DA QUEIMADA

para recitar enquanto a poção arde e antes de servir aos participantes

Mochos, corujas, sapos e bruxas.
Demónios, duendes e diabos, espíritos dos nevoeiros.
Corvos, salamandras e meigas, feitiços das curandeiras.
Troncos podres e furados, lugar de vermes.
Fogo das Guerras Santas, negros morcegos,
Cheiro dos mortos, trovões e raios.
Orelha de cão, pregão da morte;
Focinho de rato e pata de coelho.
Pecadora língua de mulher má casada com homem velho.
Casa de Satanás e Belzebu, fogo dos cadáveres ardentes
Corpos mutilados de indescentes,
Peidos de cus infernais
Bramido do mar bravo
Barriga inútil de mulher solteira
Miar de gatos que andam à solta.
Guedelha suja de cabra mal parida.
Com este fole levantarei as chamas deste lume
que se assemelha ao do inferno
E fugirão as bruxas a cavalo das suas vassouras
indo-se banhar na praia das areias gordas.
Oiçam! Oiçam os ruídos que fazem
as que não podem deixar de queimar-se na aguardente
ficando assim purificadas.
E quando este preparo, passar pelas nossas goelas,
ficaremos livres dos males da nossa alma
e de todo o embruxamento.
Forças do ar, terra, mar e lume!
A vós faço a chamada:
Se é verdade que tendes mais força que a humana gente,
aqui e agora, fazei com que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem connosco nesta Queimada


quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Dupla inquietação

Era inevitável: quando me ponho a ouvir a música do Zé Mário, vou sempre parar à poesia do Gomes Ferreira (o contrário também acontece, embora menos). Talvez seja a inquietação o denominador comum, ou então os gritos de rebelião, de raiva não contida. Seja o que for, deixo-me escorregar para o meio deles.

XL
(Madrid rendeu-se. Ranjo os dentes.)

Homens: na noite do desânimo
levanto a minha voz
para pregar o ódio.

Um ódio total e violento
a todos os narcóticos
que adormecem a realidade
com neblinas de música.

Ódio às lágrimas mal choradas diante dos poentes,
à alegria das crianças mortas que teimam em rir nos olhos dos velhos,
às noites de insónia por causa de uma mulher,
às flores que iluminam os mortos de alma,
ao álcool da arte-pura-para-esquecer,
aos versos com túneis acesos por dentro das palavras,
aos pássaros a cantarem os perfumes das árvores secas,
às valsas com voos de tule
- e até ao sol
que diminui o mundo
em indiferença de continuar.

Ódio ao mar a modelar deuses
nos nossos corpos feios de tanto se julgarem belos.

Ódio à primavera
- essa mulher voadora
que entra pelas janelas
com asas azuis
para que a nossa dor
pareça preguiça de existir.

Ódio às serenatas que o luar faz do céu à terra,
às pétalas nos cabelos dos fantasmas ao vento,
às mãos-dadas nas sendas brancas dos idílios,
à pele de frio doce dos amantes,
aos colos das mães a embalarem futuro,
às crianças com céus do tamanho dos olhos,
às cartas de paixão a prometerem suicídios (para beijos mais fundos),
às insinuações de paraíso nas vozes de pedir esmola,
às escadas de corda nos olhos das noivas das trapeiras,
às danças a perfumarem de sexo a derrota,
às ninfas disfarçadas em canteiros de jardins,
e aos recantos foscos
onde escondemos a Verdade
em galerias de evasão
- só para que os nossos olhos continuem límpidos
a ignorarem todos os negrumes
com escadas até ao centro da terra.

Ódio ao disfarce, às máscaras, ao «falemos noutra coisa»,
aos desvios, às fontes dos claustros, ao «vamos logo ao cinema»,
aos problemas de xadrez, aos dramas de ciúme, às infantas do fogo das lareiras,
e aos que não têm a coragem
de estacar, pálidos,
com unhas na carne
a olhar de frente,
sem arrancar os olhos,
os caminhos dos mortos sagrados
até aos horizontes onde os homens se ofuscam das manhãs virgens.

Ódio a todas as fugas, a todos os véus,
a todas as aceitações, a todas as morfinas,
a todas as mãos ocas das prostitutas,
a todas as mulheres nuas em coxins de afagos,
para nos obrigarem a esquecer...

Mas eu não quero esquecer, ouviram?
Não quero esquecer!

Quero lembrar-me sempre, sempre e sempre
deste minuto de abismo,
para transmiti-lo de alma em alma,
de treva em treva,
de corvo em corvo,
de escarpa em escarpa,
de esqueleto em esqueleto,
de forca em forca,
até ao Ranger do Grande Dia
para a Salvação do Mundo
sem anjos
nem demónios
- mas só homens e Terra.

José Gomes Ferreira, in Heróicas (1936-1937-1938)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

domingo, 26 de outubro de 2008

Noites Lisboetas (I)

Faz hoje dez anos que nos deixaste as noites mais vazias. Queria ir hoje ao Clínica Bar, sentar-me ali no segundo ou terceiro tamborete, acender um cigarro e, se o "enfermeiro" Rita ainda for o bar tender, pedir-lhe:
- Rita, dê-me um duplo do do Cardoso Pires.
Bebi contigo meia dúzia de vezes debaixo desse tecto, sem nunca te ter dito mais do que o «Boa Noite» para a geral, mas os nossos olhares cruzaram-se cúmplices no reconhecimento mútuo dos iniciados em sociedades secretas: os teus sinais de grão-mestre da escrita e os meus de aprendiz da leitura.
Li pouco do que escreveste.
Li O Delfim há tanto tempo que, prometo-te, vou lê-lo outra vez um dia destes, de tal modo se fundiu no fundo da memória com outros textos.
A Balada da Praia dos Cães, essa de vez em quando é "relida", principalmente quando passo em certas zonas da cidade. Nunca, Zé, nunca mais pude passar na Rua da Madalena sem que me lembrasse de ti. E é para lá que vamos agora...

Bazar Ortopédico

Elias no Largo do Caldas: Neste largo apeou-se ela do táxi.
Ela é Mena no Inverno, três meses atrás, e não numa manhã como esta perfilada de sol. Viajou de autocarro desde a Casa da Vereda até ao viaduto Duarte Pacheco, última paragem à boca da cidade, e aí meteu a Campo de Ourique à procura dum táxi. Impermeável escorrido, lenço colado à cabeleira falsa, a ver passar pára-brisas. Elias faz ideia do desespero que não deve ter sido para ela essa manhã: é mais fácil enfiar um autocarro pelo cu duma agulha do que entrar num táxi em dia de chuva.

[«A respondente», lê-se nos Autos, «efectuou o percurso em conformidade com as instruções recebidas (...) em Lisboa, fez-se transportar de táxi até ao Largo do Caldas e dali prosseguiu a pé até ao escritório do dr. Gama e Sá, na Rua do Ouro, onde chegou por volta das dez e trinta horas da manhã»]

tendo evitado, como admite Elias, a Rua da Conceição, já que a Rua da Conceição é como toda a gente sabe a rota obrigatória dos moscardos entre a central da Pide e os curros da cadeia do Aljube. Légua da Morte, poderia chamar-se àquelas centenas de metros que vão das celas à tortura.
Mas Elias não veio ao Largo do Caldas para reconstruir os passos de Mena na manhã em que ela fez a primeira visita ao advogado. Dirige-se para lá, é certo, chegou a sua vez de apalpar a palavra do Ilustríssimo Gama e Sá, mas se passou por ali foi porque de casa para a Rua do Ouro o Caldas lhe fica em caminho de diligência, como se diz em serviço. Está-lhe ao pé da porta, sabe esse largo de trás para diante e de diante para trás, o largo com a barbearia duma só cadeira e espelho de moscas, com os marceneiros de meia cancela que nunca se vêem, só se ouvem, e com o casarão das janelas trancadas onde à noite anda uma luzinha a passear lá dentro. Numa manhã de sol como esta o casarão tem fatalmente um friso de pombas emproadas ao correr do telhado mas não vale a pena olhar, é sempre aquilo. Do outro lado é que sim, do outro lado, Rua da Madalena a descer, é a feira dos ortopédicos. Aí nunca falta que ver nem que meditar.

"Hoje, graças à Ciência, podemos reconstituir as partes mortas do corpo humano. Podemos animá-las de energia motora e restituir-lhes as formas e expressões que foram da sua natureza". – Eminente prof. Hasaloff, de Viena da Áustria.

Calçadas a pino, cada loja com o seu carrinho de inválido exposto à porta como se estivesse à espera da ordem de partida para um rally-surpresa. Vistas do cimo da rua, aquelas cadeiras resplandecentes parecem prontas a rolar a qualquer momento pelo plano inclinado abaixo, ganharem velocidade, altura, e desaparecerem como máquinas loucas sobrevoando os telhados da cidade. Ao pôr do Sol recolhem domesticamente, mas ficam as montras iluminadas porque essas são de todas as horas como os sacrários dos ex-votos no caminho de quem passa. Exibem membros articulados, espartilhos dramáticos que lembram palácios de tortura, pescoços de metal, Próteses & Fundas Medicinais. Numa das vitrinas, em molduras de veludo-relíquia, está o professor Hasaloff a proferir as suas palavras redentoras sobre as partes mortas do corpo.
Há também o carro da mão decepada, Elias nunca passa ali sem o olhar. E é fatal, estacionado diante da mesma loja, noite e dia sem arredar uma polegada, lá está o velho e familiar Oldsmobile com o letreiro Bazar Ortopédico / Orçamentos Grátis colado no vidro de trás. E a mão. Há sempre a tal mão pousada no volante, de borracha plástica, morena e quase terrosa e com um pulso peludo que termina num punho de camisa sem manga. Tem tudo, a mão, rugas, unhas, pêlos implantados nos poros; no dedo próprio vê-se uma aliança de casamento.
Elias verifica invariavelmente: os pneus do Oldsmobile estão cheios, a carroçaria sem as poeiras crestadas dos carros abandonados. Dá ideia que viaja sem ninguém se poder aperceber, que se desloca a horas misteriosas e por sítios inconfessáveis, conduzido pela mão decepada. E quando se passa ali, lá está: parece um daqueles heróicos automóveis dos caixeiros-viajantes dos outroras poeirentos que percorriam as províncias escalavradas, orgulhosos das mercadorias que transportavam. Ortopedias, orçamentos grátis. E a mão, que afinal é oca e podia ser uma mão-luva para revestir outra mão de carne com os mesmos pêlos, as mesmas unhas e os mesmos poros, a mão continua sem corpo mas fiel ao seu posto. Colocada sobre o volante como um selo de posse: O Oldsmobile é dela.
Nos acasos de Elias pelo Largo do Caldas há sempre este ponto obrigatório, a mão. Depois descerá ao Rossio, Restauradores, Parque Mayer, ou em inverso, rumo ao Tejo. Assim vai hoje, Rua Augusta abaixo. Semáforos e montras, filigranas, souvenirs, change-exchange, manequins e imponências bancárias, e bem no fim levanta-se o triunfal arco de pedra, porta da capital e o Tejo, todo em glória barroca e a irradiar bênçãos sobre o trânsito e o comércio, Ad Virtutem Maiorum. Bem no alto está o relógio solene, governo dos cidadãos, dez horas e trinta minutos. Estamos chegados.
Elias faz uma pausa de esquina para arrumar as ideias? O advogado fica a dois passos, só tem que virar à Rua do Ouro e entrar na primeira porta com engraxador.
Vão de escada com cavalheiros a lerem o jornal em tribunas de engraxador, cheiro a pomadas de cabedal, uma escada de madeira velha, é ali. Sobe por entre paredes de estuque suado, com o barulho da rua a escoar-se atrás dele, degrau a degrau, os pregões da lotaria, os travões dos autocarros, os panos de sacar brilho a estalarem no verniz do calçado. E quando é recebido lá em cima vê-se noutro mundo, maples de couro e silêncio alcatifado; sente-se um perfume morno, perfume de charuto, e a sala é de portas almofadadas, sombras a talhe doce. Elias está sentado diante duma mesa de mogno, numa extensão austera que ele atravessa com o braço para apresentar um documento:
Trata-se desta carta, senhor doutor. Saber se vossa excelência reconhece a letra e a assinatura.
Do outro lado despontam duas mãos vagarosas; brancas e lisas, despendem brilhos. Anéis, unhas envernizadas. Mais em cima uma gravata a tremular em seda, e todo o peito, que é imenso, resplandece contra o espaldar do cadeirão. Por último a cabeça: óculos a faiscar, pele luzidia, barba polida a after-shave e a toalhas de vapor.
Advogado Gama e Sá: Parece de facto a letra do major Dantas Castro. Lê e relê a carta. Sem pressas. Apalpando o queixo.
Elias Chefe: A carta é dirigida ao advogado de defesa e remetida de Paris.
Estou a ver, estou a ver, acena o advogado enquanto lê.

sábado, 25 de outubro de 2008

Lisboa de sempre

Tanto e tão pouco para dizer de nós.
Por mais que tente fugir-te, és lastro para a viagem.
Por mais que tente abraçar-te, és vento que foge para o mar.
Lembras-te da aurora da nossa vida?
Lembras-te de descermos ao longo dos carris e de nos cruzarmos com as varinas que subiam ao bairro mais alto?
E dos rios de verdura - ploc, ploc, ploc no alcatrão - que desaguavam na Ribeira?
E das sandes de fiambre, prémios de consultas e análises de valentia?
Dos regressos a uma casa que se deslocou para longe?
Do amor vertido em ódio por te perder?

* "Roubei" esta foto ao Yanneck, lá no «Olhar Macro» (eu avisei, não avisei?)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Agora, o livro

Quem cá vem já terá reparado, lá na «Rodinha» dos blogues, no peculiar anterozóide.
Como muitos dos poucos que por aqui passam são docentes de algum nível de ensino, certamente conhecem alguns dos 'bonecos' do Antero, que têm corrido meio mundo.
Alguns privilegiados viram (e vêem) o nascimento de muitos deles, na sequência de tantos outros que, ao longo dos anos, o Antero tem vindo a compor naqueles caderninhos de capa geralmente preta que pertencem à sua indumentária, tal como as calças ou os sapatos. Primeiro, só nós, na ESC, e alguns outros amigos tivemos direito à coisa. Depois, nos e-mails da malta, começaram a aparecer, cada vez com mais frequência. Em seguida, há quase dois anos, a publicação no blogue criado ad hoc. Mais recentemente, o interesse manifestado pelos editores do Escola Informação (SPGL), boletim no qual passaram a figurar. E agora, finalmente, o livro, que está a ser pensado e que, um dia destes, ali para os lados de Odivelas, vai ver a luz.
Nihil obstat, amigo, antes pelo contrário, venha ele antes que seja tarde e já não haja liberdade suficiente nesta terra para rirmos à vontade - se já nos roubaram o prazer de, enquanto fumávamos os nossos "cigarrinhos de intervalo", te acompanharmos na criação da bonecada, já não deve faltar muito para o resto.