terça-feira, 4 de novembro de 2008
Ocaso
domingo, 2 de novembro de 2008
The Quest
PORTUGAL SACRO-PROFANO
Vila do Conde
O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde
Ruy Belo,
sábado, 1 de novembro de 2008
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Desassossego

V
Ah! se acontecesse enfim qualquer coisa!
Se de repente saísse da terra um braço
e atirasse uma rosa
para o espaço.
Mas não.
Lá está o sol do costume
com a exactidão
de uma bola de lume
desenhada a compasso...
... sol que à noite continua
a andar em redor
nas entranhas da lua
– que é sol com bolor...
E desde que nasci,
haja paz ou guerra,
nunca vi outra coisa.
Ah! como queres que acredite em ti
– braço que hás-de romper a terra
e atirar uma rosa?
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Trovante - Xácara das Bruxas Dançando
ESCONJURO DA QUEIMADA
para recitar enquanto a poção arde e antes de servir aos participantes
Mochos, corujas, sapos e bruxas.
Demónios, duendes e diabos, espíritos dos nevoeiros.
Corvos, salamandras e meigas, feitiços das curandeiras.
Troncos podres e furados, lugar de vermes.
Fogo das Guerras Santas, negros morcegos,
Cheiro dos mortos, trovões e raios.
Orelha de cão, pregão da morte;
Focinho de rato e pata de coelho.
Pecadora língua de mulher má casada com homem velho.
Casa de Satanás e Belzebu, fogo dos cadáveres ardentes
Corpos mutilados de indescentes,
Peidos de cus infernais
Bramido do mar bravo
Barriga inútil de mulher solteira
Miar de gatos que andam à solta.
Guedelha suja de cabra mal parida.
Com este fole levantarei as chamas deste lume
que se assemelha ao do inferno
E fugirão as bruxas a cavalo das suas vassouras
indo-se banhar na praia das areias gordas.
Oiçam! Oiçam os ruídos que fazem
as que não podem deixar de queimar-se na aguardente
ficando assim purificadas.
E quando este preparo, passar pelas nossas goelas,
ficaremos livres dos males da nossa alma
e de todo o embruxamento.
Forças do ar, terra, mar e lume!
A vós faço a chamada:
Se é verdade que tendes mais força que a humana gente,
aqui e agora, fazei com que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem connosco nesta Queimada
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Dupla inquietação
XL
Homens: na noite do desânimo
levanto a minha voz
para pregar o ódio.
Um ódio total e violento
a todos os narcóticos
que adormecem a realidade
com neblinas de música.
Ódio às lágrimas mal choradas diante dos poentes,
à alegria das crianças mortas que teimam em rir nos olhos dos velhos,
às noites de insónia por causa de uma mulher,
às flores que iluminam os mortos de alma,
ao álcool da arte-pura-para-esquecer,
aos versos com túneis acesos por dentro das palavras,
aos pássaros a cantarem os perfumes das árvores secas,
às valsas com voos de tule
- e até ao sol
que diminui o mundo
em indiferença de continuar.
Ódio ao mar a modelar deuses
nos nossos corpos feios de tanto se julgarem belos.
Ódio à primavera
- essa mulher voadora
que entra pelas janelas
com asas azuis
para que a nossa dor
pareça preguiça de existir.
Ódio às serenatas que o luar faz do céu à terra,
às pétalas nos cabelos dos fantasmas ao vento,
às mãos-dadas nas sendas brancas dos idílios,
à pele de frio doce dos amantes,
aos colos das mães a embalarem futuro,
às crianças com céus do tamanho dos olhos,
às cartas de paixão a prometerem suicídios (para beijos mais fundos),
às insinuações de paraíso nas vozes de pedir esmola,
às escadas de corda nos olhos das noivas das trapeiras,
às danças a perfumarem de sexo a derrota,
às ninfas disfarçadas em canteiros de jardins,
e aos recantos foscos
onde escondemos a Verdade
em galerias de evasão
- só para que os nossos olhos continuem límpidos
a ignorarem todos os negrumes
com escadas até ao centro da terra.
Ódio ao disfarce, às máscaras, ao «falemos noutra coisa»,
aos desvios, às fontes dos claustros, ao «vamos logo ao cinema»,
aos problemas de xadrez, aos dramas de ciúme, às infantas do fogo das lareiras,
e aos que não têm a coragem
de estacar, pálidos,
com unhas na carne
a olhar de frente,
sem arrancar os olhos,
os caminhos dos mortos sagrados
até aos horizontes onde os homens se ofuscam das manhãs virgens.
Ódio a todas as fugas, a todos os véus,
a todas as aceitações, a todas as morfinas,
a todas as mãos ocas das prostitutas,
a todas as mulheres nuas em coxins de afagos,
para nos obrigarem a esquecer...
Mas eu não quero esquecer, ouviram?
Não quero esquecer!
Quero lembrar-me sempre, sempre e sempre
deste minuto de abismo,
para transmiti-lo de alma em alma,
de treva em treva,
de corvo em corvo,
de escarpa em escarpa,
de esqueleto em esqueleto,
de forca em forca,
até ao Ranger do Grande Dia
para a Salvação do Mundo
sem anjos
nem demónios
- mas só homens e Terra.
José Gomes Ferreira, in Heróicas (1936-1937-1938)