quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Há pó no ar! (Urso da Casa Azul) RTP2

As coisas que a miúda me faz descobrir!...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Life Sentence

479.

Entrei no barbeiro no modo do costume, com o prazer de me ser fácil entrar sem constrangimento nas casas conhecidas. A minha sensibilidade do novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado.
Quando me sentei na cadeira, perguntei, por um acaso que lembra, ao rapaz barbeiro que me ia colocando no pescoço um linho frio e limpo, como ia o colega da cadeira da direita, mais velho e com espírito, que estava doente. Perguntei-lhe sem que me pesasse a necessidade de perguntar: ocorreu-me a oportunidade pelo local e pela lembrança. «Morreu ontem», respondeu sem tom a voz que estava por detrás da toalha e de mim, e cujos dedos se erguiam da última inserção na nuca, entre mim e o colarinho. Toda a minha boa disposição irracional morreu de repente, como o barbeiro eternamente ausente da cadeira ao lado. Fez frio em tudo quanto penso. Não disse nada.
Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais – se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo da vida.
O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim – sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um «o que será dele?». E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade das ruas de uma cidade qualquer.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

domingo, 9 de novembro de 2008

Breaking Glass (1980)

Com 15 aninhos celebrados há menos de duas semanas, aterrei em Heathrow em 21 de Julho de 1980.
O mundo mudou a partir desse dia, e eu soube-o nessa hora, mas numa dimensão ínfima se comparada com o que disso sei hoje.
Portugal, Lisboa, Massamá em 1980 estavam a anos-luz daquilo que comecei a ver a partir do momento em que o avião tocou o solo. Outro mundo, outra dimensão, em todos os planos. O que aprendi nos dois meses em que lá estive, para o bem e para o mal, moldou-me definitivamente o carácter. Vivendo em casa de familiares lá emigrados, trabalhando ao seu lado nas limpezas de escritórios e lojas ao fim do dia, tinha as manhãs e as tardes por minha conta e a chave de casa no bolso, ao lado das libras dos meus salários semanais. Não fiz tudo o que um puto de 15 anos poderia ter feito naquelas circunstâncias, mas isso só o soube mais tarde. Os meus horizontes eram limitados e a cidade era minha até onde pudesse ir a pé ou de autocarro ou metro sem correr o risco de me perder.
Talvez um dia continue a escrever esta história, entrando nos pormenores. Hoje, lembrei-me desse Verão, porque me lembrei dos dois discos - sim, só dois LP! - que de lá trouxe, comprados em Oxford Street: «McCartney II», acabadinho de sair e gravado pelo ex-Beatle praticamente em casa, e «Breaking Glass», primeiro trabalho de Hazel O'Connor e banda sonora do filme homónimo no qual ela é protagonista, película essa que só chegaria a Portugal, salvo erro, quase dois anos depois.
Em 80, dizia-se que o 'punk' tinha morrido, mas o que eu vi em Londres não foi nada disso.
Em 80, a 'new wave' amadureceu e vingou pelo menos meia década.
«Breaking Glass» é 'new wave' mas 'punk'. Não é uma referência para os entendidos, mas influenciou-me talvez mais do que qualquer outra coisa que tivesse ouvido até então.
E, entretanto, 28 longos anos depositaram-lhe muitas camadas arqueológicas em cima.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O simples é belo

Esta é a versão d'«O Mundo da Criança».
A mais antiga que conheço (e de que gosto mais) está em:
http://www.youtube.com/watch?v=NcSgW1tBYrg#

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ocaso

"Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar."
Eugénio de Andrade
A ti, inevitavelmente, volto e sempre voltarei. Estás presente, de pedra e cal, nas minhas memórias mais antigas e mais queridas do tempo em que, corria, saltava, escalava, nadava, pescava, nos teus domínios e sob o teu atento olhar protector. Ainda eras farol nesse tempo. Lembro-me de a Dona Augusta sair de casa com um garrafão de petróleo, ao fim do dia, para acender a chama que toda a noite orientaria a navegação. Lembro-me de ela continuar a fazê-lo com o teu primeiro substituto. Já não existe nenhum deles. Tu subsistes, resistes, adaptado a candeeiro.
Sejas o que fores, quando a noite se aproxima, cansada de galgar meio mundo de terras e terras, és tu quem lhe dá as boas vindas ao mar e lhe desejas sorte para a longa viagem. Ficaste sempre, desejando partir. Apenas em sonhos, apanhas a boleia da noite e vais com ela por esse mar fora atrás do sol que vos foge sempre. Imaginas apenas o que existe para além do horizonte. Mas ouves todos os fins de tarde as notícias que a noite te traz e te grita a correr, antes de se lançar ao silêncio da travessia, e isso basta-te para conheceres o mundo como se o conhecesses realmente.
E é sobre isso que todas as noites conversas com a tua companheira que eterna e ternamente te fita do outro lado da baía, meio escondida pela vegetação que a veste e embeleza para ti. Sobre isso e sobre tantas outras coisas que são só vossas e a mais ninguém dizem respeito.

domingo, 2 de novembro de 2008

The Quest


PORTUGAL SACRO-PROFANO
Vila do Conde

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

Ruy Belo,
Homem de Palavra[s],
1970

sábado, 1 de novembro de 2008

oito bolas de pêlo

Descobri com a 'piquena'.