quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Chamada Geral
avisam-se todas as polícias
fugiu um homem
tem
olhos muito abertos
duas mãos dois pés
caminha persistentemente
atenção
supõe-se que é perigoso
sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços
atenção
GOSTA DE TREMOÇOS
repete-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem à solta
à solta
atenção
tem-se como certo
que é
realmente perigoso
os aeroportos
já estão sob vigilância permanente
tudo está a postos
não poderá passar
por nenhuma fronteira
que seja conhecida
insiste-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem em liberdade
atenção
em liberdade
delações muito recentes
permitem afirmar
que fala com frequência
todo o cuidado é pouco
consta também
embora sem referências concretas
que está sempre presente
nos locais os mais suspeitos
apela-se com insistência
para o civismo de todos os cidadãos
para a denúncia rápida e eficaz
há recompensa
atenção
anda pelo país um homem
livre
não se sabe o que fará
exige-se a quem o vir
que atire imediatamente
é urgente
atenção
atenção
chamam-se todas as polícias
uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência
repete-se o apelo
ATIREM PARA MATAR
NADA DE PERGUNTAS
Mário Henrique Leiria, Novos Contos do Gin
sábado, 24 de janeiro de 2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Às compras
Entrou, como de costume, no supermercado do bairro, quinze minutos antes da hora de encerramento.
Já raros eram os clientes. Já os repositores preparavam o dia seguinte reabastecendo as prateleiras. Já na peixaria jaziam no seu níveo leito apenas, esparsos, os sobrantes. Circulava-se mais fluidamente àquela hora pelos corredores, apesar de as paletes os estreitarem ainda mais do que o habitual. Curiosos eram os percursos de cada um dos compradores. Uns, metódicos, começando por acomodar no fundo do cesto os artigos mais pesados e volumosos, deixando para o fim os mais delicados e perecíveis, colocando-os depois pela ordem inversa no tapete rolante para novamente irem para o fundo, agora, dos sacos. Outros, seguindo a lógica para eles desenhada pelos pensadores que idealizaram o espaço, navegando à vista e parando aqui e ali para as incursões necessárias nas baías e enseadas que se lhes iam oferecendo. Outros ainda, ziguezagueando ao ritmo da lembrança do que faz falta e, por isso mesmo, passando várias vezes nos mesmos sítios, voltando atrás, vendo e revendo, por vezes repondo o que acabavam de retirar.
Com o cruzamento das linhas desta complexa geometria, inevitavelmente se cruzou várias vezes com os mesmos transeuntes, também discretos, também sorridentes e corteses no tom quase de surdina que imprimiam às vozes, nas cedências de passagem ou de vez num balcão, e todos tão diferentes da horda que duas horas antes, ruidosa e boçalmente, invadira o mesmo espaço.
Enquanto, no balcão da charcutaria, sem pressa, apreciava e apreçava embalagens de queijos e presuntos fatiados, uma voz feminina, mesmo ao seu lado, pediu:
– Pese-me duzentos gramas deste fiambre, por favor.
Imediatamente o seu olhar se fixou na enunciadora de tão improvável quanto correcta produção linguística. Em seguida, a surpresa deu lugar à estupefacção quando a empregada percebeu à primeira o pedido, sem repetir “corrigindo”, Duzentas?, como já tantas vezes a si acontecera.
Depois, a cliente ucraniana agradeceu à empregada africana e afastou-se.
Já raros eram os clientes. Já os repositores preparavam o dia seguinte reabastecendo as prateleiras. Já na peixaria jaziam no seu níveo leito apenas, esparsos, os sobrantes. Circulava-se mais fluidamente àquela hora pelos corredores, apesar de as paletes os estreitarem ainda mais do que o habitual. Curiosos eram os percursos de cada um dos compradores. Uns, metódicos, começando por acomodar no fundo do cesto os artigos mais pesados e volumosos, deixando para o fim os mais delicados e perecíveis, colocando-os depois pela ordem inversa no tapete rolante para novamente irem para o fundo, agora, dos sacos. Outros, seguindo a lógica para eles desenhada pelos pensadores que idealizaram o espaço, navegando à vista e parando aqui e ali para as incursões necessárias nas baías e enseadas que se lhes iam oferecendo. Outros ainda, ziguezagueando ao ritmo da lembrança do que faz falta e, por isso mesmo, passando várias vezes nos mesmos sítios, voltando atrás, vendo e revendo, por vezes repondo o que acabavam de retirar.
Com o cruzamento das linhas desta complexa geometria, inevitavelmente se cruzou várias vezes com os mesmos transeuntes, também discretos, também sorridentes e corteses no tom quase de surdina que imprimiam às vozes, nas cedências de passagem ou de vez num balcão, e todos tão diferentes da horda que duas horas antes, ruidosa e boçalmente, invadira o mesmo espaço.
Enquanto, no balcão da charcutaria, sem pressa, apreciava e apreçava embalagens de queijos e presuntos fatiados, uma voz feminina, mesmo ao seu lado, pediu:
– Pese-me duzentos gramas deste fiambre, por favor.
Imediatamente o seu olhar se fixou na enunciadora de tão improvável quanto correcta produção linguística. Em seguida, a surpresa deu lugar à estupefacção quando a empregada percebeu à primeira o pedido, sem repetir “corrigindo”, Duzentas?, como já tantas vezes a si acontecera.
Depois, a cliente ucraniana agradeceu à empregada africana e afastou-se.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
PROGRAMA
Sei eu lá bem que aspecto a poesia
deva ter. Não esse tipo paralisado,
monocórdico. É uma coisa que não
aprecio muito. O mesmo tom repetido
até ficar gasto, e depois chamar isso
«coerência formal», ou «uma voz
própria», esse género de tretas.
Não, isso é pouco do meu gosto.
Então antes a guloseima favorita
da minha infância. O rebuçado
mágico. A gente vai chupando,
chupando, estão sempre a aparecer
outras cores e, mal uma pessoa
se distrai, não sobra mais
nada. É exactamente isso, acho
eu. Uma coisa assim. É ela por ela.
Tom Lanoye (trad. Fernando Venâncio)
deva ter. Não esse tipo paralisado,
monocórdico. É uma coisa que não
aprecio muito. O mesmo tom repetido
até ficar gasto, e depois chamar isso
«coerência formal», ou «uma voz
própria», esse género de tretas.
Não, isso é pouco do meu gosto.
Então antes a guloseima favorita
da minha infância. O rebuçado
mágico. A gente vai chupando,
chupando, estão sempre a aparecer
outras cores e, mal uma pessoa
se distrai, não sobra mais
nada. É exactamente isso, acho
eu. Uma coisa assim. É ela por ela.
Tom Lanoye (trad. Fernando Venâncio)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Subscrever:
Mensagens (Atom)

