Entrou, como de costume, no supermercado do bairro, quinze minutos antes da hora de encerramento.
Já raros eram os clientes. Já os repositores preparavam o dia seguinte reabastecendo as prateleiras. Já na peixaria jaziam no seu níveo leito apenas, esparsos, os sobrantes. Circulava-se mais fluidamente àquela hora pelos corredores, apesar de as paletes os estreitarem ainda mais do que o habitual. Curiosos eram os percursos de cada um dos compradores. Uns, metódicos, começando por acomodar no fundo do cesto os artigos mais pesados e volumosos, deixando para o fim os mais delicados e perecíveis, colocando-os depois pela ordem inversa no tapete rolante para novamente irem para o fundo, agora, dos sacos. Outros, seguindo a lógica para eles desenhada pelos pensadores que idealizaram o espaço, navegando à vista e parando aqui e ali para as incursões necessárias nas baías e enseadas que se lhes iam oferecendo. Outros ainda, ziguezagueando ao ritmo da lembrança do que faz falta e, por isso mesmo, passando várias vezes nos mesmos sítios, voltando atrás, vendo e revendo, por vezes repondo o que acabavam de retirar.
Com o cruzamento das linhas desta complexa geometria, inevitavelmente se cruzou várias vezes com os mesmos transeuntes, também discretos, também sorridentes e corteses no tom quase de surdina que imprimiam às vozes, nas cedências de passagem ou de vez num balcão, e todos tão diferentes da horda que duas horas antes, ruidosa e boçalmente, invadira o mesmo espaço.
Enquanto, no balcão da charcutaria, sem pressa, apreciava e apreçava embalagens de queijos e presuntos fatiados, uma voz feminina, mesmo ao seu lado, pediu:
– Pese-me duzentos gramas deste fiambre, por favor.
Imediatamente o seu olhar se fixou na enunciadora de tão improvável quanto correcta produção linguística. Em seguida, a surpresa deu lugar à estupefacção quando a empregada percebeu à primeira o pedido, sem repetir “corrigindo”, Duzentas?, como já tantas vezes a si acontecera.
Depois, a cliente ucraniana agradeceu à empregada africana e afastou-se.