terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

sábado, 14 de fevereiro de 2009

À hora mais fria



À hora mais fria, quando a noite dá lugar à madrugada, os seus olhos insistiam em perscrutar o negrume do horizonte, debruado por miríades de astros cintilantes no jogo perfeito de simetria que é o reflexo do céu nas águas do mar, enquanto a aurora lentamente se ia aproximando cavalgante na suave brisa que ainda transportava os perfumes da tórrida meseta ainda há pouco deixada pelo caminho.
Toda a noite ali estivera sentada no minúsculo promontório avarandado por sobre a praia, imóvel, quase petrificada, quase fazendo já parte do perenal recorte da paisagem.
Há semanas que as noites são, todas, assim passadas. E nem um sinal. Nada. Nas horas que se seguiram à partida dele, ainda teimava em ver o rasto deixado nas águas pela quilha do pequeno batel, de onde lhe chegavam os ecos das últimas palavras por ele proferidas, naquela crepuscular hora já tão nocturna:
«Não me esperes… não me esperes, que eu não volto… nunca mais… nunca! Hei-de amar-te para sempre!»
No fim dessa primeira noite de expectante vigília, vestiu o negro que desde então a cobre da cabeça aos pés e sepultou-se em casa, de janelas e portas fechadas, do nascer ao pôr do sol. Nunca mais ninguém a viu, vizinhos ou parentes. Nem mesmo aqueles que ainda foram impondo no aferrolhado postigo as marteladas tentativas de obtenção da resposta que vencesse o hermetismo daquele emparedamento que só a coberto do xaile e da noite alta era quotidianamente interrompido pela fortuita saída e sequente deambulação pelos bem conhecidos trilhos – por entre tojos, cardos e chorões – que a dirigiam ao costumeiro ponto de vigia.
O mar o trouxera um dia, o mar o levara uma noite.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Amuo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Conselho (I)


Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

Fernando Pessoa

* esta foto
"foi emprestada"

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Feira da Ladra


* "pedi emprestada" esta foto a Nas rodas do tempo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Stella Maris


Depois de mais uma volta na cama, lentamente abriu os olhos e demoradamente o procurou na outra metade do leito. Nem sinal da sua presença. Em sobressalto, sentou-se de olhos fixos no breu do quarto, ouvindo o rumor, ritmado e progressivo, das ondas quebrando nas falésias vizinhas, num crescendo infinito, como se o mar quisesse, em fúria, definitivamente iniciar a sua invasão da terra por aquela enseada. Enterrou a cabeça nas mãos e um choro, que começou quase mudo, em breve se tornou pranto, como se as suas lágrimas quisessem inundar-lhe a casa, em conluio com o mar.
Ele partira há já muitos dias, mar adentro, manobrando sozinho na popa do seu pequeno barco e nunca mais voltara nem dele soubera qualquer nova. Teria o mar decidido vingar-se da sua ousadia? E agora o mar revolto tentava entrar-lhe pela casa. Porquê? Só porque ele, um dia, lha tinha roubado e a tinha trazido para viver consigo? Não pode um homem amar uma Estrela do Mar?