sábado, 4 de abril de 2009

Wish you were... - III


Foi o último passageiro a entrar no avião.
Olhou pela primeira vez para o número que lhe calhara no check in: 9D. Pelo menos, tivera a sorte de ficar na parte da frente e de ocupar uma coxia - detestava sentar-se à janela. Procurou o seu lugar, que não tardou a encontrar, e, olhando sem ver, balbuciou um quase imperceptível «Excuse me!» dirigido à ocupante do 9E, sentando-se imediatamente sem esperar por qualquer anuência. Queria apenas apertar o cinto e fechar os olhos até se completarem a descolagem e a vertiginosa subida até ao patamar de cruzeiro.
Ela, sem tirar os olhos do livro que não lia, ainda esboçou uma tentativa de resposta mas já não foi a tempo. Sentiu imediatamente a tensão do seu novo vizinho, transpirada no cheiro a uísque e na crispação com que os dedos se cravavam nos joelhos parecendo quererem arrancar-lhes as rótulas. Os seus olhos continuaram a percorrer as linhas do livro aberto como quem segue o caminho de um desses labirintos quebra-cabeças.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Wish you were... - II


Depois da costumeira confusão na arrumação das bagagens de mão por cima das respectivas cabeças, esta nova revoada de passageiros lá começara a acomodar-se nos atribuídos assentos. O avião estava já quase cheio, mas o lugar ao seu lado continuava vazio.
Abriu o livro na página marcada e passeou o olhar pelas linhas de texto sem atentar no que estava escrito. As palavras que lhe soavam chegavam da memória de outra leitura, da da carta que segurava entre os dedos e que lhe servira como marcador para as páginas agora abertas do encadernado companheiro para a viagem: "tendo esverdeado a minha alma com o teu aroma refrescante e deixado o teu verde salpicado de cores garridas..."
Estas palavras, intensas, não a deixavam, desde que as lera, tiradas da caixa do correio, no preciso momento em que saía de casa para o aeroporto. Fora surpreendida pela mais bela carta de amor que alguma vez recebera, não por ele lha ter escrito e enviado mas por a sua chegada ter coincidido com a partida para a longa viagem, instrumento da fuga ao mais belo e mais impossível dos seus relacionamentos amorosos. O seu último encontro tinha sido o mais intenso de todos; nele, os seus corpos e as suas almas tinham efectivamente sido sujeitos a uma comunhão tal que as cores de cada um se misturaram com as do outro, como se fossem plantas de um mesmo canteiro enrodilhadas por uma brisa doce e carregada de sal marinho.
Por isso, as palavras a não deixavam, por ter sentido exactamente o que elas traduzem. Nunca vivera um amor tão belo, tão intenso e tão impossível. Por isso, fugia dele. Por isso, estava agora sentada entre as asas que a levariam para longe, para muito longe da terra em que deixava a vida que não podia ter. Por isso, sentia que, por muito que fugisse, nunca iria deixar de o amar.

domingo, 29 de março de 2009

Wish you were... - I


Levou à boca o último trago do duplo uísque e encaminhou-se para a porta de embarque quase como um autómato.
Quanto mais viajava de avião, mais difícil se lhe apresentava a entrada num desses gigantescos pássaros de metal.
Só lá ia com alguma dose de anestesia.
O cereal irlandês, destilado três vezes, prestava-se, como nenhum outro, para o efeito. Assim, sem gelo. Puro como o alambique o entregou aos cascos de carvalho que o envelheceram antes de o embotelharem em vidro.
Nisto pensava, evadindo-se o mais que podia, enquanto os seus passos, marcados por um ritmo seguramente alheio, iam encurtando o espaço e o tempo que o separavam da boneca sorridente que já lhe estendia a mão para destacar o canhoto do cartão de embarque.
«Good evening, sir! Thank you for travelling with us! Have a nice flight!»
Agradeceu, mudamente, com o sorriso que conseguiu forçar, e entrou na manga, como se chinelasse da sala para o quarto, destilando pela quarta vez o refinado grão norte-irlandês.

sábado, 21 de março de 2009

Parabéns, filhota


Faz hoje precisamente dois anos que te recebi nas minhas mãos e te dei os primeiros beijos, filha.
Hoje, demos-te o dia todo, e tu soubeste aproveitá-lo. És uma companheira de jornada maravilhosa, sempre alegre e bem disposta. Amo-te.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Lua bebida


Bebido o luar

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.



Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 18 de março de 2009

Uma outra crise

Apesar de o som não estar nada famoso...

domingo, 15 de março de 2009