quarta-feira, 29 de abril de 2009

sábado, 25 de abril de 2009

Somos livres



Quando eu era menino e começava a ver o mundo, as espingardas tinham sido desprovidas de balas mortíferas e munidas de perfumadas flores de cores vivas.
Ia ser um mundo novo, livre e justo, e a esperança estava depositada em nós, pois seríamos a primeira geração a crescer em democracia.
Mas não foi.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Conselho (II)


Conselho

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
.......................
................................Eugénio de Andrade

terça-feira, 21 de abril de 2009

... sonho de um porto infinito...


...........................................IV

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...
.....................
De repente todo o espaço pára...
Pára, escorrega, desembrulha-se...
E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...
....................
Fernando Pessoa

quinta-feira, 16 de abril de 2009

imitatio

É claro que nos comportamos imitando, ao longo de todas as décadas das nossas infâncias. Começamos por imitar os outros e passamos a imitar-nos, a nós próprios, quando tentamos seguir uma linha de coerência. Consciente ou inconscientemente, norteamo-nos (ou orientamo-nos) pelos faróis modelares que vamos encontrando na navegação à vista a que chamamos vida. É por isso que, enquanto pais e educadores, sem deixarmos de ser nós, temos a obrigação de encarnar as personagens certas nos momentos fulcrais das vivências experienciais das nossas crianças e dos nossos adolescentes. Já o sabia enquanto professor e estou a aprendê-lo como pai. E não é nada fácil...

*Hoje, apeteceu-me assinalar a capicua que este post é (111), não por imitação, mas por a Lady Godiva, no seu Mar Aberto, nos ter recentemente relembrado a beleza de certas combinações numéricas ou morfossintácticas.

Dia Mundial d' A Voz

domingo, 12 de abril de 2009

Wish you were... - IV


Com um sinal sonoro, apagou-se a luz que obrigava ao uso do cinto de segurança e imediatamente se assistiu à movimentação do pessoal de bordo, logo seguido pelos passageiros mais impacientes. Noutra época, seria o momento de acender o cigarro que o ajudaria a libertar-se da tensão acumulada na última meia hora. Mas essa luzinha continuava ligada e assim iria manter-se.
Agora, a onze mil metros de altitude, sentia-se descontrair e começava a prestar atenção ao que o circundava. A turística do Jumbo estava praticamente repleta – mais de 500 almas cruzavam o Atlântico em direcção às Antilhas, atrás do Sol que teimava em declinar. As oito horas de viagem para percorrer cinco fusos horários provocam necessariamente jet lag, mas esse problema nunca o afectara em demasia, o que o aterrorizava eram as descolagens e as aterragens. Sempre que pensava nisso, tropeçava numa das muitas ironias da sua vida, pois, quando jovem adolescente, sonhava vir a ser piloto.
Já eram muitas as pessoas que circulavam ao longo das duas intermináveis coxias da cabina, como se passeassem num centro comercial climatizado, enquanto lá fora a temperatura, segundo os ecrãs, quase atingia os cinquenta graus negativos. No meio daquela multidão, as hospedeiras tardavam em aparecer e ele precisava de comer qualquer coisa que lhe ensopasse o uísque que ingerira no processo de anestesia para o voo e que lhe provocara o forte hálito alcoólico com o qual sabia poder incomodar quem o rodeasse. Foi pensando nisso que, de boca bem fechada, atentou na vizinha do 9E, a qual, ao sentir o seu olhar, lhe respondeu com um breve sorriso, antes de mergulhar novamente no livro aberto sobre a sua mão esquerda. Só agora reparava na discreta beleza da companheira de viagem que o destino lhe reservara.