domingo, 1 de novembro de 2009

Finados



16 de Novembro


Debaixo destes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura reduzir a vida a uma insignificância. Todo o trabalho insano é este: reduzir a vida a uma insignificância, edificar um muro feito de pequenas coisas diante da vida. Tapá-la, escondê-la, esquecê-la. O sino toca a finados, já ninguém ouve o som a finados. A morte reduz-se a uma cerimónia, em que a gente se veste de luto e deixa cartões de visita. Se eu pudesse, restringia a vida a um tom neutro, a um só cheiro, o mofo, e a vila a cor de mata-borrão. Seres e coisas criam o mesmo bolor, como uma vegetação criptogâmica, nascida ao acaso num sítio húmido. Têm o seu rei, as suas paixões e um cheirinho suspeito. Desaparecem, ressurgem sem razão aparente de um dia para o outro num palmo do universo que se lhes afigura o mundo todo. Absorvem os mesmos sais, exalam os mesmos gases, e supuram uma escorrência fosforescente, que corresponde talvez a sentimentos, a vícios ou a discussões sobre a imortalidade da alma.
Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Construímos ao lado da vida outra vida que acabou por nos dominar. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem. Toda a gente forceja por criar uma atmosfera que a arranque à vida e à morte. O sonho e a dor revestem-se de pedra, a vida consciente é grotesca, a outra está assolapada.
Remoem hoje, amanhã, sempre, as mesmas palavras vulgares, para não pronunciarem as palavras definitivas. Toda a gente fala no céu, mas quantos passaram no mundo sem ter olhado o céu na sua profunda, na sua temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com ele. Nenhum de nós repara no que está por trás de cada sílaba: afundamos as almas em restos, em palavras, em cinza. Construímos cenários e convencionámos que a vida se passasse segundo certas regras. Isto é a consciência – isto é o infinito… Está tudo catalogado. Na realidade jogamos a bisca entre a vida e a morte, baseados em palavras e sons. E, como a existência é monótona, o tempo chega para tudo, o tempo dura séculos. Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio, teias de escuridão e de silêncio. Na botica sonolenta ao pai sucede o filho sobre o tabuleiro de gamão. Quero resistir, afundo-me. Começo a perceber que o hábito é que me faz suportar a vida. Às vezes acordo com este grito: – A morte! a morte! – e debalde arredo o estúpido aguilhão. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh como a vida pesa, como este único minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida esplêndida é aborrecida e inútil! Não se passa nada! não se passa nada e eu sinto aqui ao lado a outra vida que me mete medo e que não quero ver! Essa vida talvez seja a minha verdadeira vida. Mas o pior é que eu percebo que, se se apodera de mim, não posso mais viver. Agarro-me com desespero ao hábito e às palavras. Tu não existes! tu não existes! O que existe é isto com que lido todos os dias, as palavras que digo todos os dias, os seres com quem falo todos os dias. – E tu rodeias-me, tu reclamas-me e queres viver comigo para todo o sempre. Não te posso ver!...
(…)
Raul Brandão, Húmus

sábado, 31 de outubro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Faróis apagados



Nesta navegação à vista, todos os pequenos pontos de luz que possam servir de referência e ajudar a não encalhar em bancos de areia ou esbarrar contra escolhos são importantísssimos. O que dizer, então, dos faróis? Sem eles, torna-se praticamente impossível rumar a bom porto. Quando alguns deles se apagam, ainda que momentaneamente, a noite fica mesmo mais escura e fria, e a vontade de navegar esmorece. Mas navegar é preciso...

domingo, 25 de outubro de 2009

Valdevinos

Morte de D. Beltrão


– Quedos, quedos, cavaleiros, — que el-rei vos mandou contar,
Falta aqui o Valdevinos — e seu cavalo tremedal;
Falta a melhor espada — que el-rei tem para batalhar.
Não no achastes vós menos, — à ceia, nem ao jantar;
Só o achastes menos — a porto de mau passar.
Deitaram sortes à ventura — a qual o havia d’ir buscar.
Todas sete lhe caíram — ao bom velho de seu pai;
Três lhe caíram por sorte — e quatro por falsidade.
Lá se vai o bom do velho, — o seu filho vai buscar.
Pelos altos vai voando, — pelos baixos procurando,
À entrada duma vila, — à saída dum lugar,
Encontrou três lavadeiras — numa ribeira a lavar.
– Deus vos guarde, lavadeiras, — que Deus vos queira guardar.
Cavaleiro d’armas brancas — viste-lo por aqui passar?
– Esse soldado, senhor, — morto está no areal;
Os seus pés tem sobre a areia — e a cabeça no juncal;
Três feridas tem em seu corpo, — todas três d’homem mortal;
Por uma lhe passa o sol, — pela outra o luar,
Pela mais pequena delas — um gavião a voar,
Com as asas bem abertas, — sem nas ensanguentar.
– Não torno a culpa aos Mouros, — em meu filho matar;
Só a torno ao seu cavalo, — não no saber desviar.
De mandado de Deus Padre — veio o cavalo a falar;
– Três vezes o desviei — e três me fez avançar,
Apertando-me as esporas — alargando-me o peitoral;
Dava-me sopas de vinho — para melhor avançar;
Os muros daquele castelo — três vezes me fez salvar.





Versão de Vinhais, recolhida pelo P.e José Firmino da Silva, 1904 (José Leite de Vasconcelos, Romanceiro Português. 1.º vol., Coimbra, 1958, versão n.º 18, pp. 31-32).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Caio Múcio Cévola


Ciues Mucium ob cladem manus dextrae «Scaevolam» nominauerunt.

A tradução directa será algo como: «Os cidadãos, por causa da perda da mão direita, chamaram Cévola (Esquerdo ou Canhoto) a Múcio».

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Rio Amarelo

Nos primórdios da "globalização" já o Rio Amarelo passava por Londres...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vida em Marte...

Ver original aqui.