sábado, 2 de janeiro de 2010

191




– Ainda o apanhamos! Ainda o apanhamos! Se apressarmos o passo, ainda o apanhamos!
E os teus olhos, ao ouvirem estas palavras, brilhando, concordaram.
E apressaste comigo o passo.
E descemos os Aliados, num alegre trote, de mão dada, como se, juntos, formássemos magicamente um ser duplamente alado.
E entrámos.
E pedimos bilhetes.
– Para onde?
– Para a Foz. Queremos ver o mar!
– Então, têm de mudar em Massarelos para a carreira 1.
– A 1, claro. Muito obrigado!
E sentámo-nos lá atrás, tu à janela, eu na coxia, sempre de mãos entrelaçadas, a beber nos olhos um do outro a paisagem que a luz do Porto nos pintava...

*Num dia de capicua, o meu post 191...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Serenata Cínica

              (Outro poema cortado pela Censura. Na
              «Seara Nova». A «serenata cínica», para o
              Edmundo Bettencourt cantar. O querido
              Edmundo, magro como um grito.)



IX

Menino que vais na rua
não cantes nem chores: berra.
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.

Aprende a pisar o mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.

Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.

Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.

Pisa a lua sem remorsos
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.

Pisa-a, frio, com coragem
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.

Menino que vais na rua
não chores, nem cantes: berra
ou então salta p'rá lua
e mija de lá na terra.

                           José Gomes Ferreira

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O nosso mundo é este

XVI

O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
Das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este….

(Mas há-de ser outro.)

                                        José Gomes Ferreira

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Acaso algo acontece por acaso?



Assim começa Magnolia, um filme que não é de Natal, mas de quando um homem quiser!...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

11.º Mandamento




«Roubarás para comer, a quem para to vender é certo que te já roubou!»

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O jardim marinho



Era uma vez um menino que nasceu cego para as coisas da terra. Só via o mar e o que nele havia. Sabia caminhos nas águas, carreirinhos. Dava nome às ondas, de uma em uma. Dizia: a luz nasce do mar e não dos astros. A claridade lhe chegava do azul, ainda molhada e, depois, flutuarejava nos céus.
Andar em terra enjoava-lhe. Tinha temor de pisar em solo firme, de cair no duro chão. Até o verde terrestre lhe incomodava. O menino não sabia tocar as folhagens, ásperas e secas. Plantas, para ele, eram as algas escorregadias e ondulantes.
Quero a minha escola no mar, pai. Em terra não posso.
O pai respondia:
Há-de ser, filho.
A mãe chorava. Como podia ela ter gerado aquele menino, mais a jeito de ser peixe? E a criança, apalpando o escuro, tocava as lágrimas da mãe e acreditava que ela sorria. No seu entender, água seria sempre sinal de felicidade.
A mãe contenta-se. São meus dedos que dizem.
A pobre mulher não respondia. Aquele era seu único filho. Para o sustentar ela tivera que trabalhar na cidade. O dinheiro que o marido retirava das pescarias já não chegava. Nem tão pouco. Os três já eram tantos, mais bocas que braços. Quando ela saía para o trabalho, pelas traseiras da casa, o menino se derramava em total despedida. Como se fosse infinita a estrada.
O pai parecia nem dar conta da estranheza de seu filho. Aceitava. Mesmo decidira puxar a cabana mais para junto da rebentação. Prendas que o miúdo lhe trazia: conchas, búzios, brilhos da maresia.
Será que passa?
Dúvida e angústia da mãe olhando o filho no meio das águas, nadando com despacho de golfinho. Ela sacudia a cabeça, negando-se: em terra o menino não tinha a competência de nem um passo, sequer um. Fora de água, sua visão se apagava. O pai, muitas das vezes, adentrava-se por terra, desafiando o miúdo para vir junto. Mas o filho chorava do escuro onde o mergulhavam.
Com o tempo e como a doença piorasse, a mãe passou a dedicar ódio ao mar. O incansável ruído das ondas já lhe inundava o sono. Ela deixou de dormir, ocupada em sofrer.
Marido, vamos sair daqui. Vamos no interior.
E nosso filho?
Ele se habitua, você vai ver.
Concluía o homem que era impossível, o menino não resistiria. E assim demorou-se o tempo. O menino deu-se de bem crescer, encharcado de azul e sal. Agora, já não era mais criança. Ao fazer do corpo se ajuntava a vontade de ainda mais ser das águas. Um dia, ele:
Devo ir. Eu pertenço lá.
E apontou o oceano. A mãe escondeu dentro um quase alívio. Mas era uma consolação triste, como se fosse o descanso de um parto falecido. Ela já não o ouvia, ele falava qualquer coisa de ser jardineiro, plantar nas ondas.
Não chora, mãe. Eu hei-de passar a visitar.
O pai suspirou um longo silêncio.
Não, filho. Já não vais-nos ver mais. Vou levar tua mãe para longe, ela não pode continuar-se vizinha da água.
Ele dobrou a despedida, perdendo-se no azul inatingível. Os dois velhos ficaram a ver a sua extinção. Quando o Sol ajoelhou a beijar o horizonte, ela pediu ao marido:
Não vamos partir esta noite. Só amanhã.
O pescador, de silêncio, consentiu. Mas, naquela noite, eles não buscaram o aconchego da cabana. Ficaram, sob os ramos da Lua, olhando o escuro abismo por onde o filho desaparecera, ouvindo os seus passos afogando-se na distância.

...................................................................Mia Couto, Cronicando