sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pelo fumo de um cigarro...


Gosto de dormir até tarde. Sempre gostei. É o meu relógio biológico: deitar tarde e tarde erguer!
Por isso me dá mais prazer levantar-me cedo em ocasiões especiais.
Nessa manhã primaveril, às sete e meia, já eu saía da Residencial das Trinas para entrar na pequena e apertada rua homónima, na direcção do miolo do casco de Guimarães.
É claro que, como qualquer turista, me fazia acompanhar de uma máquina fotográfica, mas acho que não cheguei a gastar um fotograma do filme incluso, em todo o tempo em que vagueei pelas milenares ruas, ruelas e praças da velha urbe, que pareciam ir despertando à minha passagem, lenta e atenta.
As imagens que guardei tenho-as todas algures entre a retina e as estantes empoeiradas da memória, onde também ainda subsistem os odores desse madrugador percurso labiríntico por entre lajes de granito entremeadas de um virginal branco e sacadas de madeira egrégia.
Chegado à Senhora da Oliveira, o pequeno-almoço tomado, a sós, na esplanada fronteira ao arco, encerrou essa pequena viagem no tempo sem tempo.
Mas ali volto, de quando em quando, como hoje, se me deixo levar pelo fumo de um cigarro...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Gente Feliz com Lágrimas



Há dois dias, numa situação agora cada vez mais frequente, tive de dizer "Não!" à minha filha. É claro que o que se seguiu é também já rotineiro. Começou a chorar, ao mesmo tempo que dizia "Uimpa, uimpa!" e pedia para beber água.
Decidi perguntar-lhe:
– Limpo o quê, filha?
– As aguinhas! – respondeu-me ela, apontando com os deditos as lágrimas que lhe escorriam face abaixo.
Não me lembro de alguma vez me ter sido dado a conhecer mais belo poema sobre lágrimas!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

191




– Ainda o apanhamos! Ainda o apanhamos! Se apressarmos o passo, ainda o apanhamos!
E os teus olhos, ao ouvirem estas palavras, brilhando, concordaram.
E apressaste comigo o passo.
E descemos os Aliados, num alegre trote, de mão dada, como se, juntos, formássemos magicamente um ser duplamente alado.
E entrámos.
E pedimos bilhetes.
– Para onde?
– Para a Foz. Queremos ver o mar!
– Então, têm de mudar em Massarelos para a carreira 1.
– A 1, claro. Muito obrigado!
E sentámo-nos lá atrás, tu à janela, eu na coxia, sempre de mãos entrelaçadas, a beber nos olhos um do outro a paisagem que a luz do Porto nos pintava...

*Num dia de capicua, o meu post 191...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Serenata Cínica

              (Outro poema cortado pela Censura. Na
              «Seara Nova». A «serenata cínica», para o
              Edmundo Bettencourt cantar. O querido
              Edmundo, magro como um grito.)



IX

Menino que vais na rua
não cantes nem chores: berra.
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.

Aprende a pisar o mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.

Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.

Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.

Pisa a lua sem remorsos
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.

Pisa-a, frio, com coragem
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.

Menino que vais na rua
não chores, nem cantes: berra
ou então salta p'rá lua
e mija de lá na terra.

                           José Gomes Ferreira