sexta-feira, 5 de março de 2010

Abracadabra


Há coisas que custo a perceber neste ciberespaço em que navegamos todos os dias. Uma das que me têm ocupado algum tempo de vida nos últimos dias é o facto de, apesar de várias tentativas frustradas, não ter conseguido encontrar em lado nenhum a letra de um dos temas da discografia de Paulo de Carvalho que mais me marcaram - exactamente o que empresta o título a este post: «Abracadabra».
Como é possível navegar, horas a fio, num imenso mar de lixo, à cata de uma preciosidade, e acabar por de lá voltar com um indelével sentimento de frustração?
Não há vídeos no Youtube, letra nos sítios do costume, uma ponta por onde se possa desenovelar qualquer pista segura...
E eu, que já há tanto tempo ando a querer dizer com palavras alheias alguma coisa sobre os dias que correm, vejo-me obrigado a arriscar a confiança nos ecos que me vêm da memória.
Acho que eram assim as palavras que a Isabel Bahia alinhavou para o Paulo de Carvalho cantar:

                                Aqui está tudo bem!
                                Aqui está tudo tão bem!
                                O sol é mesmo de ouro,
                                a lua é toda de prata.
                                E quando chove
                                só caem diamantes!

                                Aqui não há semáforos,
                                aqui só há chupa-chupas.
                                E até as bengalas dos velhos
                                são feitas de chocolate.
                                 Ai, como é bom, tão bom,
                                 vivermos aqui!

                                  Abracadabra!
                                  Abrem-se as portas.
                                  Abrem-se os olhos de espanto.
                                  Não vejo o lado de fora!
                                  Quem me tira do encanto?

                                  (...)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Ilustração Portuguesa


A Hemeroteca Municipal de Lisboa oferece-nos alguns tesouros, como a «Ilustração Portugueza», uma das mais célebres publicações do século passado.
É de visitar em:
 * Há por aqui um desafio escondido...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O sentido da vida - Parte I



PRIMEIRA CENA: TEATRO À LA CARTE


Um casal muito bem vestido assim para o moderno, sentado à mesa de um restaurante, a olhar para a ementa. Lançam-se olharzinhos por cima das ementas. Sorriem com ar de circunstância.

ELE: Estás-te a divertir, amor?

Depois de uma pausa, aborrecida de morte.

ELA: Muito, meu tesouro. Imenso.

Risinhos tontos de ambos enquanto se dão a mão.
Chega NÁDIA, com um bloco de notas e caneta, extremamente amável.

NÁDIA: Os senhores já decidiram?
ELE: O que é que te apetece?
ELA: Não tenho bem a certeza… Como é o número cinco?
NÁDIA: Fantástico. Eu recomendo. Política internacional.
ELE: É muito profundo?
NÁDIA: Para mim não…
ELA: O que leva?
NÁDIA: Uma base de análise global, envolta num discurso ecologista light, com molho rosa e reivindicações contratuais. Não é nada indigesto.
ELA: Não. O corpo pede-me uma coisa mais forte.
NÁDIA: O telelixo interessa-lhe?
ELA: Nem por isso.
NÁDIA: E a violência de género? Vem numa moldura de tolerância zero, com laivos de feminismo radical…
ELE: Não, nada de radicalismos. (Para ELA.) Não te cai bem, depois eu fico mal disposto e acabamos sempre a discutir.
NÁDIA: Fora da ementa posso oferecer-lhes terrorismo islâmico, acordos entre patronato e sindicatos – muito divertidos –, apontamentos para um novo conceito de macho ibérico…
ELA: Não tem nada mais pessoal? Qualquer coisa que nos toque mesmo fundo.
NÁDIA: Mais íntimo?
ELA: Que nos emocione.
ELE: Tens a certeza, amor?
ELA: Hoje é uma noite muito especial… E há tanto tempo que não sinto nada…
NÁDIA: A verdade é que já não fazemos o pessoal há muito tempo.
ELA: Porquê?
NÁDIA: Era demasiado catártico.
ELA: Não se preocupe. Catarse é connosco. Ele, para já, é dramaturgo.
ELE: Autor.
ELA: Vai dar ao mesmo.
ELE: Não é bem. O dramaturgo é um criador de linguagens cénicas, que tem as raízes da sua obra imersas na antropologia moderna e na arte contemporânea. O autor não. O autor é um autocrata que se auto-cria numa auto-crítica auto-freudiana a partir de uma autoridade autista, como um autêntico autómato. Não concorda?

Em resposta, NÁDIA continua a sorrir impávida.

ELA: E eu sou actriz. Mas não me conhece porque sou do teatro.
NÁDIA: (Depois de uma pausa.) Fica então para dividirem? O pessoal, quero dizer.
ELA: É muito forte para uma pessoa só?
NÁDIA: Pode gerar ansiedade, confusão e problemas de comunicação…
ELA: Perfeito. É exactamente o que estamos a precisar.
ELE: Está bem. Um pessoal para cada um.
NÁDIA: E para beber?
ELA: Um copo de Borba.
ELE: E uma água sem gás.

NÁDIA recolhe as ementas e vai-se embora.
Escuro.



Antonio Onetti, Nádia ou os anões vão crescendo

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Duocentésimo



PROMETEU

Éter divino, brisas de asas velozes,
nascentes dos rios, sorrisos inúmeros
das vagas do mar, ó terra, mãe de todos,
e disco do Sol, que tudo vê - eu vos invoco!
Vêde o que sofre um deus, da parte dos deuses!
Contemplai as torturas
dilacerantes, que, por tempos sem fim,
eu hei-de suportar!
Tais são as algemas infamantes
que para mim criou o jovem senhor dos bem-aventurados.
Ai! Ai! Suspiro pela pena
presente e futura. Donde há-de vir um dia
o extremo limite deste sofrimento?
Mas que digo? Conheço já com rigor
tudo o que há-de vir. Desgraça inesperada não pode
surgir. Força é suportar o melhor possível
o destino marcado, sabendo invencível
a força da necessidade.
Mas calar ou não calar a minha sorte
não me é possível. Coitado de mim, que, por ter ofertado
um dom aos mortais, estou sob o jugo da necessidade.
Fui eu que descobri, no recesso de uma cana,
a nascente furtiva do fogo, que aos homens se revelou
mestra de todas as artes e recurso inestimável.
Desses crimes expio agora a pena,
pregado com algemas, sob a luz do céu.

Ésquilo, Prometeu Agrilhoado

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Diamante


Parabéns, mãe, pelos 75 já cumpridos!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Magnólia



A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu esplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria – na metáfora –
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

                 Luísa Neto Jorge