
Levou à boca o último trago do duplo uísque e encaminhou-se para a porta de embarque quase como um autómato.
Quanto mais viajava de avião, mais difícil se lhe apresentava a entrada num desses gigantescos pássaros de metal.
Só lá ia com alguma dose de anestesia.
O cereal irlandês, destilado três vezes, prestava-se, como nenhum outro, para o efeito. Assim, sem gelo. Puro como o alambique o entregou aos cascos de carvalho que o envelheceram antes de o embotelharem em vidro.
Nisto pensava, evadindo-se o mais que podia, enquanto os seus passos, marcados por um ritmo seguramente alheio, iam encurtando o espaço e o tempo que o separavam da boneca sorridente que já lhe estendia a mão para destacar o canhoto do cartão de embarque.
«Good evening, sir! Thank you for travelling with us! Have a nice flight!»
Agradeceu, mudamente, com o sorriso que conseguiu forçar, e entrou na manga, como se chinelasse da sala para o quarto, destilando pela quarta vez o refinado grão norte-irlandês.